A Build A Rocket Boy decidiu oferecer um fim de semana de luxo a fãs selecionados para testar MindsEye. Mas o gesto, que à primeira vista parece generoso, esconde uma realidade bem menos brilhante. Os trabalhadores do estúdio escocês não engoliram a ideia — e fizeram questão de o dizer alto e bom som.
Um evento com tudo pago… exceto os salários em falta
O estúdio, que nos últimos 13 meses mandou para a rua entre 250 a 300 funcionários, organizou um evento onde os fãs puderam experimentar novas funcionalidades do jogo. Tudo com despesas pagas, claro. Mas o detalhe que mais irritou a equipa despedida foi outro: o que era suposto ser um momento de diversão para a comunidade transformou-se, na prática, num outsourcing barato de testes.
O Independent Workers' Union of Great Britain (IWGB) não hesitou em classificar a iniciativa como um «desperdício de dinheiro». Chris Bratt, presidente do sindicato, foi ainda mais direto: para ele, o estúdio está a usar fãs para fazer o trabalho que antes cabia a profissionais pagos. E, convenhamos, depois de um lançamento caótico e de despedimentos em massa, a ironia não podia ser mais amarga.
«Isto não é um gesto de boa vontade. É uma forma de cortar custos à custa de quem ainda acredita no projeto.» — Chris Bratt, presidente do IWGB
Despedimentos em massa e agora isto?
O timing não podia ser pior. MindsEye estreou-se no mercado com problemas técnicos graves, e o estúdio respondeu com uma onda de despedimentos que deixou muita gente no desemprego. Agora, enquanto os antigos funcionários tentam reconstruir as suas carreiras, o estúdio gasta dinheiro a voar fãs para testar um jogo que, pelos vistos, ainda precisa de muito trabalho.
Para a malta que foi despedida, a mensagem é clara: o estúdio prefere investir em relações públicas do que em estabilidade laboral. E, sejamos honestos, custa a acreditar que esta seja a melhor estratégia para recuperar a confiança dos jogadores — ou dos próprios trabalhadores.
Fãs como cobaias? A comunidade merece mais
É legítimo questionar se os participantes do evento estavam cientes do papel que lhes foi atribuído. Testar um jogo em desenvolvimento pode ser entusiasmante, mas não deixa de ser trabalho — mesmo que não seja remunerado. E quando esse trabalho substitui o de profissionais qualificados, a linha entre «experiência única» e «exploração» torna-se perigosamente ténue.
O estúdio, por seu lado, parece mais preocupado em dar a volta à narrativa do que em resolver os problemas reais. Afinal, entre despedimentos, lançamentos problemáticos e agora este evento polémico, MindsEye tem dado mais razões para desconfiança do que para celebração.
Conclusão: Onde é que isto vai parar?
Numa indústria onde a confiança é tudo, a Build A Rocket Boy está a brincar com fogo. Usar fãs para tapar buracos deixados por despedimentos não é só mau para a imagem — é um sinal de que algo está muito errado na gestão do projeto. E, infelizmente, quem acaba por pagar o preço são sempre os mesmos: os trabalhadores e, em última análise, os jogadores.
Se o estúdio quer mesmo salvar MindsEye, talvez devesse começar por ouvir quem realmente importa: os seus antigos funcionários, os fãs que ainda acreditam no jogo e, acima de tudo, os profissionais que sabem como fazer as coisas bem feitas. Porque, convenhamos, este circo já deu espetáculo que chegue.


